DISCOS VOADORES EXISTEM?

Por Ozires Silva

           No meu vôo para Brasília, quando recebi o convite formal para presidir a Petrobrás, na quinta-feira anterior, eram cerca de 19 horas, quando decolei de Brasília para São José dos Campos – logo após a entrevista com o Presidente Sarney. Estava nos comandos do nosso "Zé Xingu". Voava comigo o Comandante Alcir Pereira da Silva. O tempo em rota continuava bom, como tinha sido por toda a semana. O serviço de vôo e meteorologia da FAB entregou-nos a previsão das condições de vôo e assegurava que o tempo iria se apresentar sem nuvens, claro e com a visibilidade sempre a mesma, ótima, dos meses de maio. Alinhado com a pista de Brasília, acelerei os motores e, assim que a velocidade adequada foi atingida, puxei o manche para trás. O nariz apontou para cima, mostrando o lindo céu estrelado.

           É difícil no mundo ver um céu com tantas estrelas como no Planalto Central brasileiro. É realmente um espetáculo que não se pode perder. Era comum apagarmos todas as luzes da cabine de pilotagem, a fim de nos integrarmos à escuridão da noite. Naqueles momentos ficávamos sem palavras para descrever a beleza do universo. O céu pontilhado de estrelas e de alguns planetas dominava a visão oferecendo momentos de tranqüilidade raramente conseguidos. A subida transcorreu normalmente e, seguindo as instruções do controle, tomei a proa sul iniciando o vôo de volta para São José dos Campos.

           Embora sentado no posto de pilotagem e fazendo os procedimentos de rotina, minha cabeça estava povoada de idéias e de desafios. Acabava de sair do Gabinete de Aureliano Chaves. A conversa não foi no tom que eu gostaria. Saí com a impressão de que enfrentaria dificuldades.

           Certamente, a Petrobrás seria muito diferente da EMBRAER, empresa pequena – quando comparada com as gigantes estatais controladas pelo Governo Brasileiro. A vinculação da EMBRAER ao Ministério da Aeronáutica jamais tinha suscitado prioridades de política partidária. A conversa com o Ministro Aureliano, curta como foi, indicou que na área de petróleo não seria a mesma coisa. Ainda não tinha identificado qual sorte de problemas teria mas, com sinceridade, algo estava no ar, embora não soubesse o que seria. Uma coisa estava clara. Eu não era o seu candidato para presidir a empresa.

           Embora sabendo que iria me preocupar muito no futuro, tratei de desfrutar aquele vôo. Poderia ser um dos últimos. Estava acontecendo o que jamais podeira ocorrer: estava deixando a "minha" EMBRAER. Não sabia mesmo se continuaria a voar, coisa que fazia desde os meus 16 anos de idade.

           No vôo tudo estava tranqüilo. Ar calmo e sem turbulências. Após quase duas horas no ar, mantendo uma altitude de 22 mil pés, aproximávamo-nos de Poços de Caldas, o último fixo de controle da rota que nos levaria a São José dos Campos. Naquele momento, ao solicitarmos autorização do Centro de Controle de Tráfego Aéreo de Brasília para iniciar a descida, recebemos uma pergunta do controlador se estaríamos observando algum objeto estranho nas imediações do nosso destino.

           Olhamos em torno e nada de diferente foi visto. Pedi ao meu co-piloto, Comandante Alcir, para observar e nada de extraordinário pôde ser identificado. Solicitei mais informações ao controlador. Ele nos informou que via três indicações, em áreas diferentes, na tela do seu radar e, sem saber do que se tratava, classificou-as como "alvos não-identificados". Insistimos pedindo mais detalhes; infelizmente as respostas sempre foram poucos satisfatórias. Mantivemos nossa proa e prosseguimos até nos aproximarmos mais de São José dos Campos. Eu estava curioso e desejava ver os tais "alvos não-identificados".

           Pedi informações e o controlador forneceu a localização de um dos objetos assinalados no radar; apesar de um certo receio demonstrado por Alcir, decidimos voar na direção indicada. Fomos nos aproximando e procurando anotar na cabeça todos os detalhes possíveis. O que víamos era algo muito semelhante a um astro – equivalente aos que sempre identificávamos como planeta. Luz forte e fixa no espaço. Talvez mostrasse umas pequenas diferenças. Era bastante amarelo, tendendo ao vermelho e provavelmente um pouco mais alongado no sentido vertical.

           O fenômeno da cor não nos causava nenhuma estranheza. O objeto estava provavelmente sobre a cidade de São Paulo e a poluição tipicamente concentrada no outono comunente provocava diferenças nas cores, por vezes colocando até a Lua com aparência vermelhada. Sua forma oblonga e o fato de aparecer no radar, isto sim, eram surpresas. Astros sempre aparecem redondos ou cintilantes e não respondem aos sinais eletromagnéticos. Também não geram imagens nos radares. Pedi ao Alcir que continuasse insistindo, em suas comunicações por rádio com o controlador, e que obtivesse mais detalhes: o que estava sendo visto, como os objetos se apresentavam na tela do radar, qual era o tamanho das indicações em relação aos aviões, velocidade (ele se movia?), etc. Enquanto isso, continuava a pilotar o Xingu na direção do objeto.

           De acordo com os regulamentos aeronáuticos, trocas de conversa para tratar de assuntos diversos aos de tráfego aéreo deveriam ser evitadas, a fim de não congestionar os importantes canais de comunicação terra-avião, vitais para o fluxo seguro das aeronaves. E, do nosso lado, deveríamos não nos esquecer nunca de que a missão do Serviço de Controle de Tráfego Aéreo é a de assegurar a movimentação dos aviões, e isso estava ocorrendo naquele momento. Muitos outros aviões estariam dependentes das informações que o mesmo controlador deveria transmitir-lhes. Afinal, o mundo não tinha se imobilizado e outras coisas continuavam a acontecer.

           E aconteceu o óbvio. Foi difícil posteriormente conseguir dados adicionais do que teria sido aquela aparição que, insisto, parecia um corpo celeste, mas mostrava seu eco no radar do Centro de Controle de Brasília. O que seria?

           Durante todo o período, mantivemos a escuta do rádio e ouvindo informações de outros pilotos que também operavam na mesma área. Eles reportavam estar observando o mesmo fenômeno. Bem, afinal não estávamos sozinhos. Tudo aquilo era inusitado. Não sabíamos do que se tratava. Parecia um astro mas não conseguíamos explicar por que ele tinha eco registrado na tela do radar.

           Eram quase dez horas da noite e, então, algo estranho começou a acontecer. À medida que nos aproximávamos do objeto, enquanto voávamos na direção de São Paulo, ele ia se desvanecendo até que desapareceu por completo. É interessante acentuar que o desaparecimento foi também constatado para outros observadores. Infelizmente, as comunicações com o operador do Controle de Brasília não estavam fáceis; o tráfego aéreo na área era intenso e os controladores estavam cumprindo seu papel de guardiões do trânsito dos aviões.

           Eles não puderam ficar com sua atenção concentrada nos "objetos estranhos", por mais importantes que pudessem ser. Assim, muitas das informações que poderiam ser úteis desapareceram devido à impossibilidade de se ficar trocando mensagens com o centro de Brasília.

           Nada mais vendo na proa em que voávamos, solicitei ao controlador a posição de um dos outros objetos não identificados e, seguindo suas instruções, voei para leste, cruzando o Aeródromo de São José dos Campos para um ponto ao sul da cidade de Taubaté. Lá encontramos uma luminosidade, abaixo de nosso nível de vôo, que parecia ser uma enorme lâmpada fluorescente, emitindo uma luz intensa com freqüência e cor equivalentes às das lâmpadas que encontramos em nossa residência. Aí nossa compreensão do que estávamos vendo ficou mais complicada. Não acreditei que aquilo pudesse ser o que o controlador tinha como indicação no radar pela simples razão de estarmos voando no máximo a uns 600 metros sobre o solo e ser virtualmente impossível que um objeto qualquer, em nível inferior ao nosso, fosse detectado por uma antena-radar instalada em Sorocaba, a cerca de 250 quilômetros de distãncia. No entanto, embora diferente do que foi visto sobre São Paulo, também não deixava de ser estranho.

           Com todas essas dúvidas na cabeça e produzindo os comentários entre nós sobre o que tínhamos visto e sobre qual seria a provável explicação, regressamos e pousamos em São José dos Campos sem problemas.

           Esses acontecimentos foram notícias principais na cerimônia de minha posse como Presidente da Petrobrás, no Rio de Janeiro. Os repórteres dos principais meios de comunicação do país, pouco interessados sobre o que o "aeronáutico" e novo presidente da empresa teria a dizer sobre petróleo, crivaram-me intensamente de perguntas, tentando obter respostas diferentes sobre "objetos voadores não identificados – OVNIs".

           Não pareceram nem um pouco preocupados com a Petrobrás. Queriam mesmo saber o que tinha sido visto e se o Presidente tinha visto um "disco voador". Procurei dar as explicações que pude mas, sinceramente, também tentei demonstrar que tinha muitas dúvidas. Se fosse para confiar nas minhas observações, acentuava ter visto um astro, mas não tinha resposta do porquê de aquele corpo estar na tela do radar do Centro de Controle de Tráfego Aéreo de Brasília.

           Assim foi minha chegada à grande empresa – Petrobrás. A partir daquele instante, o assunto que deveria dominar a minha agenda seria o petróleo e seus produtos, com toda a miríade de alternativas criadas pela comercialização do precioso líquido energético.

FONTE: "Decolagem de um sonho", de Ozíres Silva (Lemus Editorial)


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