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A TESTEMUNHA Por Reinaldo Stabolito Os principais estudos da ufologia são baseados em testemunhos de pessoas que foram protagonistas de experiências ufológicas – e não é diferente em se tratando de buscar uma classificação da tipologia dos extraterrestres. Sendo assim, a testemunha passa a ser um fator crítico para toda e qualquer investigação da casuística e merece uma atenção especial. Num primeiro momento, o grande enfoque dos pesquisadores era averiguar se as testemunhas padeciam de alguma doença mental, se ansiavam pela fama ou necessitavam de dinheiro. Se esses três elementos não estivessem agindo diretamente no relato da testemunha, ele era considerado autêntico. Mas com o passar do tempo, os ufólogos perceberam que estes fundamentos não eram suficientes para se classificar os relatos das testemunhas, pois, além da estabilidade mental e suas intenções, percebeu-se que outras variáveis interferiam diretamente em seus relatos: os moldes culturais, seus valores e seu meio. Tenha em vista que, salvo um eremita, ninguém é completamente refratário à satisfação que produz a fama. Qualquer ser humano que seja alheio ao entusiasmo, à especulação, ao medo e à fantasia é, sem dúvida, uma pessoa fora da "normalidade" de acordo com a média da população. Assim, fica a questão: é realmente possível haver qualquer relato ufológico isento de distorção? Não, realmente não há! Então, cabe ao pesquisador ufológico estudar essas possíveis variáveis para que fique habilitado a "filtrar" o melhor possível tais distorções.
O aparecimento incide sobre a percepção da testemunha que, a princípio, a recolhe distorcida. Isto acontece, por exemplo, com a incapacidade humana para ver cores infravermelhas ou para perceber sons ultra-sônicos. Assim podemos afirmar que o que apreendemos no ato do avistamento está diretamente relacionado com as limitações de nossos órgãos sensoriais. E, para se somar a essas limitações, estão as variáveis circunstanciais: localização da testemunha, possíveis obstruções de seu campo visual, seu estado de ânimo, o cansaço ou sono e, principalmente, suas deficiências oculares e auditivas. Tendo todas essas variáveis agindo diretamente na apreensão de um avistamento, podemos afirmar que o avistamento é, na verdade, um "avistamento percebido" e que pode ser bem diferente do fenômeno efetivamente. Já o "avistamento percebido" é apreendido e sofre, inevitavelmente, uma "filtragem" pela bagagem cultural e mental da testemunha, constituído pelas suas crenças, tabus e hábitos de racionalismo. Por exemplo: uma testemunha da selva africana tende a equiparar o observado com elementos extraídos do seu habitat natural, enquanto que uma testemunha de um país desenvolvido o compara com símbolos do seu universo técnico. Uma testemunha determinada pode chamar de "paus" ao que a outra chamaria de "pés articulados". Alguém pode fazer comparações com materiais rudimentares (parecia um tronco voador) e outros com símbolos mais modernos (parecia um foguete). Também, de acordo com as disposições mentais da testemunha no ato do avistamento, uma pessoa pode prender sua atenção no conjunto do avistamento, enquanto que outra pessoas pode prender sua atenção em algumas partes isoladas do conjunto. Tudo isso faz com que o "avistamento percebido" sofra novas distorções ao ser apreendido pela testemunha e se transforma em "avistamento interiorizado". Esse "avistamento interiorizado" também sofre modificações de acordo com a transmissão desses elementos: desde ausência de um vocabulário apropriado por parte da testemunha até o "recolhimento" deste conteúdo por um outro meio de comunicação. Não é a mesma coisa uma declaração de uma pessoa acostumada a utilizar expressões mais ou menos científicas, mais ou menos cultas, que a de uma pessoa limitada pela sua situação cultural e um vocabulário simples e escasso. Da mesma forma não é a mesma coisa que a declaração seja recolhida em fita magnética e publicada, do que se é escrita por um divulgador sensacionalista e publicada com ênfase em alguns poucos aspectos (as partes mais "misteriosas" e "subjugantes" do evento). A contemplação de todo este processo, pelo qual o avistamento chega a ser divulgado – "avistamento descrito" –, nos leva necessariamente a uma constatação de suma importância: Não podemos conceber que o que lemos ou conhecemos de um avistamento ufológico é um registro fiel do fenômeno em si. Na verdade, estamos lidando com uma observação, interpretação e descrição impregnada de distorções de um fenômeno avistado – o que não representa questionar a honestidade da testemunha. Para melhor compreensão, vamos ilustrar o que foi aqui colocado com um exemplo da casuística de nosso país. No caso Bete e Débora, registrado no livro "Seqüestros Alienígenas – Investigando Ufologia com e sem Hipnose", de Mario Rangel (Coleção Biblioteca Ufo), os testemunhos de Bete e Débora foram concordantes. No entanto, como o próprio Rangel comentou, houve pequenas diferenças que não comprometem a validade do caso: Bete descreveu a luz que viram do UFO como sendo branca e Débora, por sua vez, relatou como sendo de cor alaranjada e coberta de névoa. Também há uma pequena diferença de forma nos desenhos que ambas fizeram do OVNI. Tudo isso pode ser justificado, em parte, pelo impacto emocional que as testemunhas sofreram ao se depararem com um fenômeno dessa magnitude, ao foco de atenção que cada uma teve individualmente, seus conteúdos internos, etc. Com essas variáveis atuando, podem acontecer distorções no "avistamento percebido" (a observação), no "avistamento interiorizado" (a interpretação) e no "avistamento descrito" (a descrição) por cada uma das testemunhas em separado – acarretando em algumas descrições diferenciadas de um mesmo fenômeno observado. © 2004 Copyright INFA – Todos os direitos reservados |